O que é Web3? A resposta a esta questão envolve uma reconsideração completa da arquitetura da internet e das relações de poder. Simplificando, Web3 representa uma nova experiência de internet baseada em tecnologias descentralizadas, que devolve o poder das plataformas centralizadas para os utilizadores e participantes. Isto não é apenas uma atualização tecnológica, mas uma mudança fundamental em torno da criação de valor, propriedade e controlo.
Da história da internet à inevitabilidade do Web3
Para entender o que é Web3, é preciso revisitar o percurso da internet. Cada grande transformação refletiu uma nova compreensão de informação, poder e valor.
Web 1.0: fluxo unidirecional de informação
Nos primórdios da internet (por volta de 1990), chamava-se Web 1.0. Esta era uma “rede de leitura” — os utilizadores eram principalmente consumidores e observadores de informação. Empresas criavam sites estáticos, com conteúdo em HTML, e os utilizadores pouco produziam. A rede era não interativa; as pessoas usavam-na para obter informação e oportunidades, mas não podiam comunicar ou participar ativamente.
Web 2.0: participação, mas sem controlo
A partir do início do século XXI, a internet entrou na era Web 2.0. O surgimento de redes sociais, sites dinâmicos e plataformas de auto-publicação mudou tudo. De repente, qualquer pessoa podia criar conteúdo, interagir e partilhar. Facebook, Twitter, YouTube — plataformas que envolveram bilhões de pessoas na internet.
Parecia ótimo, mas a realidade não era tão simples. Embora os utilizadores criassem valor, as plataformas detinham e controlavam tudo. As fotos que carregas no Facebook, as criações que publicas no Instagram, os seguidores no YouTube — tudo pertence às plataformas. Ainda mais importante, os dados eram recolhidos, analisados e comercializados. As plataformas usavam o teu comportamento para direcionar anúncios, enquanto o valor dos teus dados era explorado pelos intermediários.
Este é o núcleo do problema: no Web 2.0, embora os utilizadores criem valor, o controlo na distribuição desse valor concentra-se em poucos gigantes tecnológicos. Eles podem alterar regras, apagar conteúdos, congelar contas — e os utilizadores pouco podem fazer.
Web3: o poder regressa aos utilizadores
O que é Web3? É uma reação e uma reformulação a esta situação. Em Web3, o poder regressa dos plataformas para os utilizadores. Estes não só criam conteúdo, como também detêm os seus dados, ativos e identidades. Esta mudança não é magia, mas uma consequência de tecnologias como blockchain, contratos inteligentes e protocolos descentralizados.
O núcleo do Web3: consenso descentralizado e propriedade do utilizador
Compreender o que é Web3 passa por entender dois conceitos centrais: descentralização e propriedade do utilizador.
O que significa descentralização
Na internet tradicional, dependemos de nós centrais — servidores de pesquisa do Google, bases de dados do Facebook, serviços de nuvem da Amazon. Se estes centros falharem, toda a rede pode parar. Mais importante, estes centros detêm poder absoluto. Decidem o que é visível, quem é banido, que serviços são desligados.
Web3 adota uma arquitetura diferente. Em vez de depender de um único servidor central, a rede é composta por muitos nós. Cada participante pode operar um nó, validando transações e mantendo o livro-razão. Sem uma entidade única que possa alterar regras ou desligar serviços, a descentralização reforça a resistência e o controlo distribuído.
O verdadeiro significado de propriedade do utilizador
No Web 2.0, um jogador pode gastar anos e milhares de euros a adquirir ativos dentro de um jogo — equipamentos, skins, propriedades virtuais. Mas nada disso pertence realmente a ele. A empresa do jogo pode alterar regras, apagar a conta, e tudo o que foi comprado desaparece. Já aconteceu que uma plataforma mudou de política e milhões de utilizadores perderam ativos acumulados ao longo de anos.
No Web3, através de NFTs (tokens não fungíveis), tudo muda. Cada ativo digital que compras pode ser cunhado como NFT, registado na blockchain. Significa que és o verdadeiro proprietário. Nenhuma empresa pode apagá-lo, congelá-lo ou alterar as suas propriedades. Podes até transferi-lo para outro jogo — uma liquidez de ativos entre plataformas que no Web 2.0 era impossível.
Isto não é apenas uma mudança técnica, é uma transformação radical na relação de propriedade.
Da pilha tecnológica ao ecossistema de aplicações: como funciona o Web3
O que é Web3, do ponto de vista técnico? É um sistema complexo de múltiplas camadas interligadas.
Fundamentos: blockchain e consenso
O blockchain é a base tecnológica do Web3. É um livro-razão partilhado, imutável, mantido por muitos nós na rede. Mas só o livro não basta; é preciso um mecanismo de consenso para decidir quem pode acrescentar novos registos.
Bitcoin usa prova de trabalho (PoW) — os mineiros competem com capacidade computacional para obter o direito de registar. Ethereum, após atualização, usa prova de participação (PoS) — quem possui mais tokens tem maior probabilidade de validar. Estes mecanismos garantem que nenhuma entidade controla a rede.
Camada intermediária: aplicações e protocolos
Sobre o blockchain, os desenvolvedores constroem aplicações. Estas são alimentadas por contratos inteligentes — códigos que se executam automaticamente, sem intermediários. Por exemplo, uma DEX (exchange descentralizada) pode usar contratos inteligentes para combinar compradores e vendedores, executar trocas e liquidar operações — tudo automatizado, sem intervenção de uma empresa.
Camada de interação do utilizador: carteiras e aplicações
No final, os utilizadores interagem com Web3 através de carteiras digitais. MetaMask, Coinbase Wallet, Trust Wallet — são ferramentas que gerem identidades digitais e ativos. Controlam as chaves privadas, garantindo autonomia financeira total — ninguém pode congelar a conta ou reter fundos.
Armazenamento e dados
Para além das transações, Web3 precisa de armazenamento de dados. IPFS (sistema de ficheiros interplanetário) oferece armazenamento distribuído — ficheiros não ficam num único servidor, mas dispersos globalmente. Mesmo que um nó fique offline, os dados permanecem acessíveis. Arweave garante armazenamento permanente — uma vez carregados, os dados não se perdem.
O ecossistema Web3: da teoria à prática
A melhor forma de entender o que é Web3 é ver como ela transforma aplicações reais.
DeFi: finanças sem intermediários
DeFi (finanças descentralizadas) permite a qualquer pessoa participar em atividades financeiras — empréstimos, trocas, investimentos — sem bancos ou intermediários. Um utilizador no Quénia pode emprestar dinheiro a alguém na Argentina, com cálculo automático de juros e prazos. Sem bancos, sem taxas de remessa, sem verificação de crédito — apenas código e mercado.
Para os 2 mil milhões de adultos sem conta bancária, isto abre uma nova porta à inclusão financeira. Para países com hiperinflação, oferece uma alternativa de proteção de ativos.
NFTs e economia criativa
NFTs não são só obras de arte digitais. Músicos podem vender músicas como NFTs, ficando com 100% do lucro. Artistas podem negociar obras globalmente, sem galerias. Designers criam moda virtual, que os clientes podem usar em múltiplas plataformas.
Esta combinação de propriedade e liquidez cria novos modelos de negócio. Criadores recebem diretamente. Os fãs tornam-se proprietários, não apenas consumidores.
GameFi: jogar e ganhar dinheiro real
Nos jogos tradicionais, gastas tempo e dinheiro a adquirir ativos, mas não podes convertê-los em dinheiro — o valor fica nos servidores da empresa.
Jogos blockchain mudam tudo. Em Axie Infinity, cada criatura ou item é um NFT, negociável no mercado aberto. Os tokens ganhos no jogo podem ser trocados por dinheiro real. Durante a pandemia, milhões nas Filipinas ganharam subsistência jogando Axie.
Não é ficção — é uma realidade de como o Web3 redefine valor e propriedade.
DAO: organizações sem CEO
DAO (Organização Autónoma Descentralizada) é uma inovação organizacional do Web3. É uma comunidade governada por código, não por pessoas. Decisões são tomadas por votação, com regras codificadas em contratos inteligentes.
Imagine um DAO de investimento — os detentores de tokens votam onde investir, e o contrato libera fundos automaticamente. Sem CEO, sem manipulação. Tudo transparente e automatizado.
Os desafios reais do Web3
Apesar do potencial, Web3 também enfrenta obstáculos importantes.
Problemas de usabilidade
Hoje, usar Web3 ainda é complicado. É preciso entender chaves privadas, carteiras, taxas de gas, interações com contratos. Os custos de transação ainda são altos em algumas redes, excluindo muitos potenciais utilizadores. Em países como Filipinas, Brasil ou África, uma taxa de transação pode equivaler a um dia de salário.
Este problema está a ser resolvido. Soluções de segunda camada (como Rollups na Ethereum) reduzem custos. Carteiras tornam-se mais amigáveis. Mas a adoção massiva ainda leva tempo.
Regulação à espreita
A regulação é uma questão central. Governos preocupam-se com lavagem de dinheiro, financiamento do terrorismo ou evasão fiscal com criptomoedas. Se um token descentralizado passar a funcionar como moeda, ameaça as políticas monetárias.
Por outro lado, não é uma questão de “sim ou não”. A China já lançou o yuan digital, e a UE estuda CBDCs — moedas digitais de bancos centrais — que usam blockchain, mantendo controlo sobre a oferta monetária. Uma regulação inteligente não é proibir, mas criar regras claras.
Riscos tecnológicos e complexidade
O ecossistema DeFi é cada vez mais complexo. Interações entre protocolos podem gerar vulnerabilidades. Incentivos podem criar bolhas especulativas. Defeitos de código podem levar a perdas de fundos.
Isto não é exclusivo do Web3; o sistema financeiro tradicional também é complexo. Mas, por ser transparente, qualquer pessoa pode auditar o código, encontrando vulnerabilidades.
Diálogo entre leis, políticas e tecnologia
O que é Web3, no final, depende de como o quadro legal e político evolui.
Código como lei
Hoje, a segurança na rede depende de ações humanas — verificadores, profissionais de segurança. Web3 introduz uma nova abordagem: regras codificadas em contratos inteligentes, que se executam automaticamente.
Por exemplo, regras anti-lavagem podem ser programadas. Assim que o código é implantado, a rede rejeita transações suspeitas automaticamente. Sem intervenção de uma entidade central. Este método de “lei como código” aumenta a eficiência e a conformidade.
Regulação como parceira
Mito comum é que Web3 deve ser “não regulável”. Mas a história mostra que ausência de regras claras leva a abusos, e muitas vezes a regulações mais severas.
Regulamentação construtiva — regras claras, categorias bem definidas, fiscalização justa — pode acelerar a adoção mainstream. Exemplos como o MiCA na Europa ou leis estaduais nos EUA estão a criar esse quadro.
Como o Web3 pode transformar negócios
A questão final é: como o Web3 mudará o mundo dos negócios?
Democratização da economia criativa
Na Web 2.0, criadores dependem de plataformas — YouTube, Spotify, Instagram — que controlam distribuição, algoritmos e receitas. Web3 permite conexão direta com os fãs. Músicos vendem músicas como NFTs, escritores criam comunidades financeiras, sem intermediários.
Novos modelos de negócio
A publicidade tradicional dá lugar a modelos mais diversos — assinaturas, tokens de serviço, propriedade comunitária. Uma aplicação pode emitir tokens aos primeiros utilizadores, que participam do crescimento e beneficiam-se dele. Assim, utilizadores também investem na plataforma.
Ecossistema cross-platform
Quando ativos pertencem ao utilizador, podem ser usados em diferentes plataformas. Um ativo ganho num jogo pode ser usado em outro, ou vendido no mercado. Essa interoperabilidade rompe os silos das plataformas, criando uma economia digital unificada.
De teoria à prática: o futuro do Web3
Não há uma resposta definitiva para o que é Web3, pois ela ainda está a evoluir. Mas alguns princípios estão claros: controlo do utilizador sobre os seus dados, propriedade real dos ativos, distribuição de poder, transparência.
A realização destes princípios exige inovação tecnológica, políticas claras e adoção pelos utilizadores. Estamos na fase inicial, com desafios e incertezas. Mas, em comparação com os primórdios da internet, já temos caminhos mais definidos, aplicações mais amplas e uma compreensão mais profunda.
A forma mais simples de entender o que é Web3 é pensar que ela eleva a internet de uma rede de “leitura e escrita” para uma de “leitura, escrita e propriedade real”. No Web 2.0, crias conteúdo, mas não o possuis. No Web3, a propriedade está sempre nas mãos do criador. Esta mudança, simples mas profunda, está a moldar o futuro da economia digital.
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O que é Web3? Compreender a propriedade do usuário na era da Internet de valor
O que é Web3? A resposta a esta questão envolve uma reconsideração completa da arquitetura da internet e das relações de poder. Simplificando, Web3 representa uma nova experiência de internet baseada em tecnologias descentralizadas, que devolve o poder das plataformas centralizadas para os utilizadores e participantes. Isto não é apenas uma atualização tecnológica, mas uma mudança fundamental em torno da criação de valor, propriedade e controlo.
Da história da internet à inevitabilidade do Web3
Para entender o que é Web3, é preciso revisitar o percurso da internet. Cada grande transformação refletiu uma nova compreensão de informação, poder e valor.
Web 1.0: fluxo unidirecional de informação
Nos primórdios da internet (por volta de 1990), chamava-se Web 1.0. Esta era uma “rede de leitura” — os utilizadores eram principalmente consumidores e observadores de informação. Empresas criavam sites estáticos, com conteúdo em HTML, e os utilizadores pouco produziam. A rede era não interativa; as pessoas usavam-na para obter informação e oportunidades, mas não podiam comunicar ou participar ativamente.
Web 2.0: participação, mas sem controlo
A partir do início do século XXI, a internet entrou na era Web 2.0. O surgimento de redes sociais, sites dinâmicos e plataformas de auto-publicação mudou tudo. De repente, qualquer pessoa podia criar conteúdo, interagir e partilhar. Facebook, Twitter, YouTube — plataformas que envolveram bilhões de pessoas na internet.
Parecia ótimo, mas a realidade não era tão simples. Embora os utilizadores criassem valor, as plataformas detinham e controlavam tudo. As fotos que carregas no Facebook, as criações que publicas no Instagram, os seguidores no YouTube — tudo pertence às plataformas. Ainda mais importante, os dados eram recolhidos, analisados e comercializados. As plataformas usavam o teu comportamento para direcionar anúncios, enquanto o valor dos teus dados era explorado pelos intermediários.
Este é o núcleo do problema: no Web 2.0, embora os utilizadores criem valor, o controlo na distribuição desse valor concentra-se em poucos gigantes tecnológicos. Eles podem alterar regras, apagar conteúdos, congelar contas — e os utilizadores pouco podem fazer.
Web3: o poder regressa aos utilizadores
O que é Web3? É uma reação e uma reformulação a esta situação. Em Web3, o poder regressa dos plataformas para os utilizadores. Estes não só criam conteúdo, como também detêm os seus dados, ativos e identidades. Esta mudança não é magia, mas uma consequência de tecnologias como blockchain, contratos inteligentes e protocolos descentralizados.
O núcleo do Web3: consenso descentralizado e propriedade do utilizador
Compreender o que é Web3 passa por entender dois conceitos centrais: descentralização e propriedade do utilizador.
O que significa descentralização
Na internet tradicional, dependemos de nós centrais — servidores de pesquisa do Google, bases de dados do Facebook, serviços de nuvem da Amazon. Se estes centros falharem, toda a rede pode parar. Mais importante, estes centros detêm poder absoluto. Decidem o que é visível, quem é banido, que serviços são desligados.
Web3 adota uma arquitetura diferente. Em vez de depender de um único servidor central, a rede é composta por muitos nós. Cada participante pode operar um nó, validando transações e mantendo o livro-razão. Sem uma entidade única que possa alterar regras ou desligar serviços, a descentralização reforça a resistência e o controlo distribuído.
O verdadeiro significado de propriedade do utilizador
No Web 2.0, um jogador pode gastar anos e milhares de euros a adquirir ativos dentro de um jogo — equipamentos, skins, propriedades virtuais. Mas nada disso pertence realmente a ele. A empresa do jogo pode alterar regras, apagar a conta, e tudo o que foi comprado desaparece. Já aconteceu que uma plataforma mudou de política e milhões de utilizadores perderam ativos acumulados ao longo de anos.
No Web3, através de NFTs (tokens não fungíveis), tudo muda. Cada ativo digital que compras pode ser cunhado como NFT, registado na blockchain. Significa que és o verdadeiro proprietário. Nenhuma empresa pode apagá-lo, congelá-lo ou alterar as suas propriedades. Podes até transferi-lo para outro jogo — uma liquidez de ativos entre plataformas que no Web 2.0 era impossível.
Isto não é apenas uma mudança técnica, é uma transformação radical na relação de propriedade.
Da pilha tecnológica ao ecossistema de aplicações: como funciona o Web3
O que é Web3, do ponto de vista técnico? É um sistema complexo de múltiplas camadas interligadas.
Fundamentos: blockchain e consenso
O blockchain é a base tecnológica do Web3. É um livro-razão partilhado, imutável, mantido por muitos nós na rede. Mas só o livro não basta; é preciso um mecanismo de consenso para decidir quem pode acrescentar novos registos.
Bitcoin usa prova de trabalho (PoW) — os mineiros competem com capacidade computacional para obter o direito de registar. Ethereum, após atualização, usa prova de participação (PoS) — quem possui mais tokens tem maior probabilidade de validar. Estes mecanismos garantem que nenhuma entidade controla a rede.
Camada intermediária: aplicações e protocolos
Sobre o blockchain, os desenvolvedores constroem aplicações. Estas são alimentadas por contratos inteligentes — códigos que se executam automaticamente, sem intermediários. Por exemplo, uma DEX (exchange descentralizada) pode usar contratos inteligentes para combinar compradores e vendedores, executar trocas e liquidar operações — tudo automatizado, sem intervenção de uma empresa.
Camada de interação do utilizador: carteiras e aplicações
No final, os utilizadores interagem com Web3 através de carteiras digitais. MetaMask, Coinbase Wallet, Trust Wallet — são ferramentas que gerem identidades digitais e ativos. Controlam as chaves privadas, garantindo autonomia financeira total — ninguém pode congelar a conta ou reter fundos.
Armazenamento e dados
Para além das transações, Web3 precisa de armazenamento de dados. IPFS (sistema de ficheiros interplanetário) oferece armazenamento distribuído — ficheiros não ficam num único servidor, mas dispersos globalmente. Mesmo que um nó fique offline, os dados permanecem acessíveis. Arweave garante armazenamento permanente — uma vez carregados, os dados não se perdem.
O ecossistema Web3: da teoria à prática
A melhor forma de entender o que é Web3 é ver como ela transforma aplicações reais.
DeFi: finanças sem intermediários
DeFi (finanças descentralizadas) permite a qualquer pessoa participar em atividades financeiras — empréstimos, trocas, investimentos — sem bancos ou intermediários. Um utilizador no Quénia pode emprestar dinheiro a alguém na Argentina, com cálculo automático de juros e prazos. Sem bancos, sem taxas de remessa, sem verificação de crédito — apenas código e mercado.
Para os 2 mil milhões de adultos sem conta bancária, isto abre uma nova porta à inclusão financeira. Para países com hiperinflação, oferece uma alternativa de proteção de ativos.
NFTs e economia criativa
NFTs não são só obras de arte digitais. Músicos podem vender músicas como NFTs, ficando com 100% do lucro. Artistas podem negociar obras globalmente, sem galerias. Designers criam moda virtual, que os clientes podem usar em múltiplas plataformas.
Esta combinação de propriedade e liquidez cria novos modelos de negócio. Criadores recebem diretamente. Os fãs tornam-se proprietários, não apenas consumidores.
GameFi: jogar e ganhar dinheiro real
Nos jogos tradicionais, gastas tempo e dinheiro a adquirir ativos, mas não podes convertê-los em dinheiro — o valor fica nos servidores da empresa.
Jogos blockchain mudam tudo. Em Axie Infinity, cada criatura ou item é um NFT, negociável no mercado aberto. Os tokens ganhos no jogo podem ser trocados por dinheiro real. Durante a pandemia, milhões nas Filipinas ganharam subsistência jogando Axie.
Não é ficção — é uma realidade de como o Web3 redefine valor e propriedade.
DAO: organizações sem CEO
DAO (Organização Autónoma Descentralizada) é uma inovação organizacional do Web3. É uma comunidade governada por código, não por pessoas. Decisões são tomadas por votação, com regras codificadas em contratos inteligentes.
Imagine um DAO de investimento — os detentores de tokens votam onde investir, e o contrato libera fundos automaticamente. Sem CEO, sem manipulação. Tudo transparente e automatizado.
Os desafios reais do Web3
Apesar do potencial, Web3 também enfrenta obstáculos importantes.
Problemas de usabilidade
Hoje, usar Web3 ainda é complicado. É preciso entender chaves privadas, carteiras, taxas de gas, interações com contratos. Os custos de transação ainda são altos em algumas redes, excluindo muitos potenciais utilizadores. Em países como Filipinas, Brasil ou África, uma taxa de transação pode equivaler a um dia de salário.
Este problema está a ser resolvido. Soluções de segunda camada (como Rollups na Ethereum) reduzem custos. Carteiras tornam-se mais amigáveis. Mas a adoção massiva ainda leva tempo.
Regulação à espreita
A regulação é uma questão central. Governos preocupam-se com lavagem de dinheiro, financiamento do terrorismo ou evasão fiscal com criptomoedas. Se um token descentralizado passar a funcionar como moeda, ameaça as políticas monetárias.
Por outro lado, não é uma questão de “sim ou não”. A China já lançou o yuan digital, e a UE estuda CBDCs — moedas digitais de bancos centrais — que usam blockchain, mantendo controlo sobre a oferta monetária. Uma regulação inteligente não é proibir, mas criar regras claras.
Riscos tecnológicos e complexidade
O ecossistema DeFi é cada vez mais complexo. Interações entre protocolos podem gerar vulnerabilidades. Incentivos podem criar bolhas especulativas. Defeitos de código podem levar a perdas de fundos.
Isto não é exclusivo do Web3; o sistema financeiro tradicional também é complexo. Mas, por ser transparente, qualquer pessoa pode auditar o código, encontrando vulnerabilidades.
Diálogo entre leis, políticas e tecnologia
O que é Web3, no final, depende de como o quadro legal e político evolui.
Código como lei
Hoje, a segurança na rede depende de ações humanas — verificadores, profissionais de segurança. Web3 introduz uma nova abordagem: regras codificadas em contratos inteligentes, que se executam automaticamente.
Por exemplo, regras anti-lavagem podem ser programadas. Assim que o código é implantado, a rede rejeita transações suspeitas automaticamente. Sem intervenção de uma entidade central. Este método de “lei como código” aumenta a eficiência e a conformidade.
Regulação como parceira
Mito comum é que Web3 deve ser “não regulável”. Mas a história mostra que ausência de regras claras leva a abusos, e muitas vezes a regulações mais severas.
Regulamentação construtiva — regras claras, categorias bem definidas, fiscalização justa — pode acelerar a adoção mainstream. Exemplos como o MiCA na Europa ou leis estaduais nos EUA estão a criar esse quadro.
Como o Web3 pode transformar negócios
A questão final é: como o Web3 mudará o mundo dos negócios?
Democratização da economia criativa
Na Web 2.0, criadores dependem de plataformas — YouTube, Spotify, Instagram — que controlam distribuição, algoritmos e receitas. Web3 permite conexão direta com os fãs. Músicos vendem músicas como NFTs, escritores criam comunidades financeiras, sem intermediários.
Novos modelos de negócio
A publicidade tradicional dá lugar a modelos mais diversos — assinaturas, tokens de serviço, propriedade comunitária. Uma aplicação pode emitir tokens aos primeiros utilizadores, que participam do crescimento e beneficiam-se dele. Assim, utilizadores também investem na plataforma.
Ecossistema cross-platform
Quando ativos pertencem ao utilizador, podem ser usados em diferentes plataformas. Um ativo ganho num jogo pode ser usado em outro, ou vendido no mercado. Essa interoperabilidade rompe os silos das plataformas, criando uma economia digital unificada.
De teoria à prática: o futuro do Web3
Não há uma resposta definitiva para o que é Web3, pois ela ainda está a evoluir. Mas alguns princípios estão claros: controlo do utilizador sobre os seus dados, propriedade real dos ativos, distribuição de poder, transparência.
A realização destes princípios exige inovação tecnológica, políticas claras e adoção pelos utilizadores. Estamos na fase inicial, com desafios e incertezas. Mas, em comparação com os primórdios da internet, já temos caminhos mais definidos, aplicações mais amplas e uma compreensão mais profunda.
A forma mais simples de entender o que é Web3 é pensar que ela eleva a internet de uma rede de “leitura e escrita” para uma de “leitura, escrita e propriedade real”. No Web 2.0, crias conteúdo, mas não o possuis. No Web3, a propriedade está sempre nas mãos do criador. Esta mudança, simples mas profunda, está a moldar o futuro da economia digital.