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Relatório de pesquisa do JPMorgan: a estratégia de venda de BTC é apenas um problema de curto prazo; a cadeia de permissões é a maior ameaça?
No início de julho de 2026, a Strategy concluiu uma negociação que gerou ampla atenção no mercado — vendeu 3.588 bitcoins, arrecadando cerca de US$ 216 milhões. Esta foi a maior venda única de bitcoins da empresa até então e também rompeu com a sua regra de longa data de “comprar e não vender”. Em um primeiro momento, o mercado tratou o episódio como um fator de risco crucial para o preço do bitcoin.
No entanto, uma equipe de analistas do JPMorgan liderada pelo diretor-geral Nikolaos Panigirtzoglou apresentou uma avaliação totalmente diferente em um relatório publicado em 9 de julho. O relatório afirma que a liquidação da Strategy é apenas um problema de curto prazo; o verdadeiro risco estrutural de longo prazo para o bitcoin vem de outra direção — a expansão de blockchains permissionadas.
Até 10 de julho de 2026, de acordo com dados do Gate, o bitcoin estava a US$ 64.034. O sentimento do mercado se recuperou após o impacto das vendas da Strategy, mas o debate mais profundo sobre a tese de valor de longo prazo do bitcoin está apenas começando.
Por que a venda de 3.588 bitcoins da Strategy é apenas um problema de curto prazo
O plano de liquidez em bitcoins da Strategy autoriza a empresa a vender até US$ 1,25 bilhão em bitcoins para reforçar reservas de caixa, pagar dividendos de ações preferenciais e otimizar a estrutura de capital. A venda de 3.588 BTC representa aproximadamente 0,4% de seu total de 843.775 BTC em carteira; após a operação, a empresa ainda detém cerca de 844 mil BTC e uma reserva de caixa de US$ 255 milhões.
O JPMorgan acredita que esse tipo de venda pode, sim, aumentar a pressão vendedora no curto prazo, mas não é suficiente para constituir uma ameaça fundamental ao bitcoin. Em termos de volume, a liquidação de US$ 216 milhões representa uma parcela limitada do volume diário de negociações do bitcoin; em termos de motivação, trata-se de uma operação financeira para pagar dividendos de ações preferenciais, e não de uma negação da direção estratégica da empresa.
Mais importante, o JPMorgan aponta que a política de venda da Strategy introduz no mercado o risco de “fluxos de capital em duas direções” — tanto compras quanto vendas são possíveis —, mas esse risco é, em essência, “evitável”. Em contraste, o risco em outro nível não é de curto prazo nem pode ser influenciado por ações individuais.
Por que a expansão de blockchains permissionadas constitui risco estrutural para o bitcoin
O ponto central do relatório do JPMorgan é que a maior ameaça de longo prazo ao bitcoin não vem de uma desmobilização de algum tipo de instituição, mas da própria forma como as instituições financeiras tradicionais adotam a tecnologia de blockchain. Se atividades-chave financeiras como tokenização, pagamentos e liquidação acabarem ocorrendo principalmente em blockchains privadas permissionadas — e não em redes públicas sem permissão —, todo o ecossistema cripto enfrentará uma “desvalorização estrutural”.
O caminho de transmissão dessa desvalorização estrutural é claro: os recursos não entram em tokens nativos nas cadeias públicas; o capital institucional contorna a cadeia pública e migra para infraestrutura privada; o volume de transações on-chain desacelera; e, por fim, a vitalidade de todo o ecossistema cripto diminui — e o bitcoin, como ativo referência do ecossistema cripto, será inevitavelmente arrastado.
Analistas do JPMorgan dizem de forma direta: “Para nós, o risco mais importante vem da continuidade da adoção de blockchain nas finanças tradicionais de um jeito que contorna as redes públicas sem permissão”. Isso não é uma crítica à Strategy, mas um alerta sistêmico sobre o rumo da indústria.
Por que as instituições tendem a preferir blockchains permissionadas em vez de cadeias públicas
No relatório, o JPMorgan analisa com detalhes a lógica interna por trás da preferência das instituições por blockchains permissionadas. Elas se alinham melhor às necessidades operacionais das instituições financeiras tradicionais em múltiplas dimensões: proteção de privacidade, controle de conformidade KYC/AML, mecanismos claros de governança, maior capacidade de processamento de transações, arcabouço jurídico mais definido e previsibilidade regulatória.
Essas vantagens não são apenas especulações teóricas; já foram validadas na prática. A própria plataforma Kinexys do JPMorgan — uma rede de blockchain permissionada — já processou, até agora, mais de 4 trilhões em transações, com volume diário acima de US$ 7 bilhões. Não se trata de um projeto piloto, e sim de infraestrutura institucional madura para transferir recursos reais em grande escala em um ambiente totalmente independente do ecossistema de blockchains públicas.
Quando um grande player de Wall Street já carrega transações reais na casa de trilhões em sua própria cadeia permissionada, para onde o dinheiro institucional vai fluir deixa de ser uma questão aberta.
Por que o Banco de Compensações Internacionais e os reguladores estão do lado das cadeias permissionadas
A avaliação do JPMorgan não é um caso isolado. O relatório cita a posição do Banco de Compensações Internacionais (BIS) — o BIS já alertou de forma clara que não se deve usar blockchains públicas sem permissão como infraestrutura financeira de importância sistêmica.
No relatório econômico de 2026, o BIS acrescenta que blockchains públicas sem permissão (como bitcoin e Ethereum) têm dificuldade de atender às exigências de escalabilidade, responsabilização legal e garantia final de liquidação para infraestruturas financeiras de importância sistêmica. Em vez disso, o BIS defende a criação de uma arquitetura de “razão única”, que inclua moedas de bancos centrais tokenizadas, depósitos de bancos comerciais e vários tipos de ativos dentro de um arcabouço regulado.
Ao mesmo tempo, o SWIFT baseado em ledger compartilhado via blockchain já entrou na fase de desenvolvimento, com plano de entrar no ar ainda este ano com transações em tempo real; projetos de moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) como euro digital e yuan digital também seguem em andamento. Essa expansão de canais regulados está reforçando, no nível institucional, a vantagem do caminho das infraestruturas permissionadas.
Para qual direção o mercado de tokenização e RWA está evoluindo
A tokenização de ativos do mundo real (RWA) é a melhor janela para observar essa tendência. O relatório do JPMorgan aponta que o tamanho do mercado de tokenização de RWA atualmente está perto de US$ 50 bilhões, e uma parcela significativa das atividades ocorre sobre Ethereum.
Mas o JPMorgan acredita que isso está mais próximo de “fase inicial de testes” do que da estrutura final do mercado. À medida que a tecnologia amadurece, funções centrais como emissão, custódia, liquidação e gerenciamento do ciclo de vida dos ativos podem migrar gradualmente para infraestruturas privadas ou permissionadas que atendam a requisitos de verificação de identidade, confidencialidade e resiliência operacional, enquanto as cadeias públicas assumiriam mais funções de distribuição e transações secundárias limitadas.
Depósitos tokenizados são o caso mais típico. Como uma dívida digitalizada sobre o saldo de depósitos bancários, depósitos tokenizados ainda permanecem dentro de estruturas de regulação bancária e seguro de depósitos. Se esse tipo de depósito for amplamente promovido na forma “não transferível” que é favorecida pelos reguladores, pode haver um efeito de substituição relevante para stablecoins voltadas ao público em cenários de pagamentos institucionais. O JPMorgan cita como evidência dessa tendência casos como o da DTCC (Depository Trust & Clearing Corporation) e da Securitize.
A disputa entre rotas de cadeia pública e permissionada pode virar?
O JPMorgan não trata a expansão de cadeias permissionadas como uma conclusão de irreversibilidade garantida. O relatório propõe três cenários inversos que poderiam invalidar os argumentos acima.
O primeiro é que modelos híbridos se tornem o padrão — cadeias públicas e permissionadas desempenhando papéis diferentes, com coexistência das duas tipologias de cadeia no ecossistema. O segundo é que, com regras regulatórias mais favoráveis (como o《Clarity Act》), a taxa de adoção de stablecoins aumente de forma significativa. O terceiro é que o bitcoin continue a desempenhar o papel de “ouro digital”, como ferramenta de hedge contra desvalorização, operando de forma independente de outros blocos do mercado de criptoativos.
Ainda assim, o JPMorgan também aponta que, mesmo com a aprovação do《Clarity Act》neste ano, o maior beneficiário pode ser o token de depósitos emitidos por bancos — e não stablecoins voltadas ao público —, o que poderia reforçar ainda mais a vantagem competitiva das cadeias permissionadas. Esse julgamento indica que o rumo final da mudança institucional ainda é altamente incerto.
Resumo
O valor deste relatório de pesquisa do JPMorgan está em transferir a atenção do mercado de eventos de curto prazo para uma questão estrutural mais profunda. A venda de 3.588 bitcoins pela Strategy, arrecadando US$ 216 milhões — apesar de ser um número considerável — é, na visão dos analistas, apenas uma ondulação na superfície. O que realmente merece atenção são as correntes abaixo da superfície: tokenização, pagamentos e liquidação estão migrando, de forma lenta mas firme, para infraestruturas permissionadas, e não para redes de blockchains públicas.
Se essa tendência persistir, o bitcoin enfrentará não uma pressão de venda oriunda de uma única instituição, mas uma deterioração de vitalidade de todo o ecossistema — piora na liquidez, redução no fluxo de capital e desaceleração nas transações on-chain. Isso não é uma questão de volatilidade de preço, e sim de tese de valor.
Claro, a disputa de rota está longe de terminar. As possibilidades de modelo híbrido, a evolução do ambiente regulatório e a posição única do bitcoin como ouro digital podem mudar o rumo final. Mas, de qualquer forma, a competição entre cadeias públicas e permissionadas já ultrapassou a categoria de discussão sobre o preço do bitcoin, tornando-se o tema central para definir o cenário dos próximos 10 anos de todo o setor cripto.
Perguntas frequentes (FAQ)
Qual é a maior ameaça estrutural de longo prazo ao bitcoin, segundo o JPMorgan?
De acordo com o relatório liderado por Nikolaos Panigirtzoglou no JPMorgan, a maior ameaça estrutural de longo prazo é a adoção de blockchains privadas permissionadas por instituições e bancos em vez de redes públicas. Se atividades de tokenização, pagamentos e liquidação acabarem migrando para cadeias permissionadas, o ecossistema cripto enfrentará desvalorização estrutural como deterioração de liquidez e redução do fluxo de capital, o que acabará por pressionar o bitcoin.
Por que a venda de bitcoins da Strategy não é vista como a principal ameaça?
A Strategy vendeu 3.588 bitcoins no início de julho (US$ 216 milhões), o que se enquadra em uma operação financeira de curto prazo, principalmente para pagar dividendos de ações preferenciais. A escala da venda é apenas cerca de 0,4% de sua carteira total, e a empresa ainda detém aproximadamente 844 mil BTC. O JPMorgan acredita que esse tipo de liquidação pode gerar pressão de curto prazo, mas não é a principal ameaça estrutural enfrentada pelo bitcoin.
O que é uma blockchain permissionada? Em que ela difere de uma cadeia pública?
Uma blockchain permissionada (Permissioned Blockchain) é uma rede em que apenas participantes autorizados podem acessar e validar transações. Diferentemente das blockchains públicas sem permissão, como bitcoin e Ethereum (em que qualquer pessoa pode participar), as cadeias permissionadas oferecem mais vantagens em privacidade, conformidade KYC/AML, mecanismos de governança, capacidade de processamento e previsibilidade regulatória, por isso são mais favorecidas por instituições financeiras tradicionais.
Em que cenários a tese de “ameaça das cadeias permissionadas” do JPMorgan poderia perder força?
O JPMorgan propõe três cenários possíveis para invalidar esse argumento: um modelo híbrido com coexistência de cadeias pública e permissionada se tornar o padrão; regulamentação mais favorável (como o《Clarity Act》) impulsionar uma adoção ampla de stablecoins; e o bitcoin continuar cumprindo o papel de “ouro digital”, fornecendo função de hedge sem ser afetado por outros segmentos do mercado de criptoativos.