A Ethereum acaba de apresentar o plano de atualização mais detalhado da sua existência: sete atualizações, cinco objetivos, uma reconstrução total.
Se está a questionar para quem foi escrito este guia... é para mim.
O investigador Justin Drake divulgou o "Strawmap", um calendário proposto com sete grandes atualizações até 2029. Vitalik Buterin, cofundador da Ethereum, classificou-o como "muito importante" e descreveu o impacto conjunto como uma reconstrução do núcleo da Ethereum ao estilo do "Navio de Teseu".
Esta metáfora merece ser compreendida.
O Navio de Teseu é um conhecido dilema filosófico grego: se substituir cada tábua de um navio, uma a uma, e eventualmente todas forem trocadas, será ainda o mesmo navio?
É exatamente esse cenário que o Strawmap propõe para a Ethereum.
Em 2029, todos os componentes essenciais do sistema terão sido renovados. Mas nunca está prevista uma "paragem total". O propósito é realizar atualizações retrocompatíveis, mantendo a cadeia ativa enquanto as peças são substituídas. No entanto, cada atualização obriga os operadores a atualizar o software, e podem surgir exceções. Trata-se de uma reconstrução integral, disfarçada de melhorias graduais. Para maior rigor: enquanto a lógica de consenso e execução é renovada, o estado (saldos dos utilizadores, armazenamento de contratos e histórico) mantém-se ao longo de todos os forks. O "navio" é reconstruído sem largar a sua carga. Todos a bordo!
"Porque não recomeçar do zero?" Porque reiniciar significaria perder aquilo que dá valor à Ethereum: as aplicações já em funcionamento, o capital em circulação e a confiança acumulada. É preciso substituir as tábuas enquanto o navio navega.
O nome "Strawmap" resulta da fusão dos termos "strawman" e "roadmap". Um strawman é uma proposta inicial, conscientemente imperfeita, feita para ser debatida e criticada. Não é um compromisso. É um ponto de partida para discussão. Mas é a primeira vez que os desenvolvedores da Ethereum apresentam um plano estruturado, com prazos definidos e metas objetivas de desempenho.
Os intervenientes neste processo são alguns dos melhores criptógrafos e cientistas informáticos do mundo. E tudo é open source. Sem taxas de licenciamento, sem contratos de fornecedor, sem equipas comerciais. Qualquer empresa, programador ou país pode construir sobre esta base. As atualizações de que o JPMorgan irá beneficiar são exatamente as mesmas disponíveis para uma startup de três pessoas em São Paulo.
Imagine um consórcio global de engenheiros de elite a reconstruir a infraestrutura financeira da internet de raiz, e poder simplesmente... ligar-se.
Antes de abordar o futuro, importa perceber o presente.
A Ethereum é, no essencial, um computador global partilhado. Em vez de uma empresa operar um servidor, milhares de operadores independentes em todo o mundo executam cópias idênticas do mesmo software.
Estes operadores validam transações de forma autónoma. Um subconjunto, os validadores, depositam também o seu próprio capital (ETH) como garantia. Se tentarem burlar o sistema, perdem esse valor. A cada 12 segundos, os validadores acordam quais as transações ocorridas e a sua ordem. Esse intervalo chama-se "slot". Cada 32 slots (cerca de 6,4 minutos) formam uma "epoch".
A verdadeira finalização, o momento em que uma transação se torna irreversível, demora entre 13 e 15 minutos, dependendo do ciclo.
A Ethereum processa entre 15 e 30 transações por segundo, consoante a complexidade. Em comparação, a rede Visa suporta mais de 65 000 por segundo. Essa diferença explica porque a maioria das aplicações Ethereum recorre hoje a redes "Layer 2", sistemas paralelos que agrupam transações e publicam um resumo na camada base da Ethereum para garantir segurança.
O mecanismo que permite a todos estes operadores chegar a acordo chama-se "mecanismo de consenso". O atual é eficaz e já foi amplamente testado, mas foi concebido para uma fase inicial e limita as capacidades da rede.
O Strawmap pretende resolver tudo isto. Uma atualização de cada vez.
O plano organiza-se em torno de cinco metas. A Ethereum já movimenta milhares de milhões de dólares diariamente, mas há limitações reais ao que pode ser desenvolvido sobre ela. Estes objetivos visam remover esses obstáculos.
Atualmente, ao enviar uma transação na Ethereum, aguarda-se 13 a 15 minutos até que seja realmente final, ou seja, irreversível.
A solução: substituir o motor de consenso entre operadores. O objetivo é obter finalização numa só ronda de votação por slot. Minimmit é um dos principais candidatos em investigação, um protocolo para consenso ultrarrápido, mas o modelo ainda está a ser refinado. O importante é o objetivo: finalização num único slot. Depois, os próprios slots vão ser encurtados: de 12 segundos → 8 → 6 → 4 → 3 → 2.

Finalização não é apenas rapidez; é garantia. Pense numa transferência bancária: o tempo entre "enviado" e "liquidado" é a janela de risco.
Se está a transferir um milhão de dólares, a liquidar títulos ou a fechar um negócio imobiliário numa blockchain, 13 minutos de incerteza são um problema. Reduzindo para segundos, transforma-se o potencial da rede. Não apenas para aplicações cripto-nativas, mas para qualquer sistema de movimentação de valor.
A rede principal da Ethereum processa cerca de 15–30 transações por segundo. É um estrangulamento.
A solução: o Strawmap propõe 1 gigagas por segundo de capacidade de execução, equivalente a aproximadamente 10 000 TPS para transações típicas (o valor exato depende da complexidade de cada transação, pois operações diferentes consomem diferentes quantidades de gas). O conceito-chave é a tecnologia "zero-knowledge proofs" (provas de conhecimento zero, ZK proofs).
De forma simples: atualmente, cada operador refaz todos os cálculos para confirmar a sua exatidão. É como se cada trabalhador refizesse o trabalho de todos os colegas. Seguro? Sim. Extremamente ineficiente? Também.
As ZK proofs permitem validar um recibo matemático compacto que comprova que o cálculo está correto. Mesma confiança, uma fração do esforço.
O software que gera estas provas ainda é demasiado lento. As versões atuais demoram minutos ou horas em tarefas complexas.
Reduzir para segundos, uma melhoria de cerca de 1 000 vezes, é um desafio de investigação ativa, não apenas de engenharia. Equipas como a RISC Zero e Succinct têm feito progressos, mas ainda é um tema de fronteira.
Uma mainnet com 10 000 TPS e finalização rápida significa menos complexidade e menos pontos de falha.

As redes Layer 2 continuam a ser essenciais para volumes realmente massivos (e personalização). Atualmente, as L2 estão limitadas pela quantidade de dados que a mainnet da Ethereum consegue processar.
A solução: "Data Availability Sampling" (DAS). Em vez de cada operador descarregar todos os dados para validar a sua existência, cada um verifica amostras aleatórias e usa métodos matemáticos para garantir a integridade do conjunto. É como confirmar que um livro de 500 páginas está na estante folheando 20 páginas ao acaso; se todas estiverem lá, pode confiar estatisticamente que o resto também está.
A PeerDAS foi lançada na atualização Fusaka, que preparou o terreno para o Strawmap. Para atingir o objetivo final, será preciso expandir iterativamente: mais capacidade de dados em cada fork, testando a estabilidade da rede em cada fase.
10 milhões de transações por segundo no ecossistema L2 permite o que hoje é impossível em qualquer blockchain. Imagine cadeias de abastecimento globais com cada produto e envio representado por um token digital. Ou milhões de dispositivos conectados a gerar dados verificáveis. Ou sistemas de micropagamentos a processar frações de cêntimo. Estes volumes são demasiado grandes para qualquer rede existente. Com 10 milhões de TPS, há margem de sobra.
A segurança da Ethereum baseia-se em problemas matemáticos praticamente insolúveis para os computadores atuais. Isto aplica-se tanto às assinaturas dos utilizadores como às dos validadores. Computadores quânticos, se algum dia alcançarem capacidade suficiente, poderiam quebrar ambos os sistemas, permitindo forjar transações ou roubar fundos.
A solução: migrar para novos métodos criptográficos (esquemas baseados em hash) considerados resistentes a ataques quânticos. Esta atualização, prevista para uma fase mais avançada, afeta quase tudo no sistema, e os novos métodos implicam dados muito maiores (kilobytes em vez de bytes), alterando a economia do tamanho dos blocos, largura de banda e armazenamento em toda a rede.
Ataques quânticos à criptografia atual podem demorar anos ou décadas. Mas se está a construir uma infraestrutura para durar, que pode vir a custodiar biliões de dólares, "logo se vê" não é resposta.
Na Ethereum, tudo é público por defeito. A menos que recorra a uma aplicação de privacidade como Railgun ou a uma L2 como ZKsync ou Aztec, todas as transações, valores e contrapartes são visíveis.
A solução: integrar transferências confidenciais diretamente no núcleo da Ethereum. O objetivo é permitir que a rede valide a transação, confirme que o remetente tem fundos e que os cálculos são corretos, sem revelar os detalhes. Pode provar-se "este é um pagamento legítimo de 50 000$" sem revelar quem pagou a quem, nem porquê.
Atualmente, existem soluções alternativas. A EY e a StarkWare anunciaram o Nightfall na Starknet em fevereiro de 2026, trazendo privacidade para Layer 2. Mas estas soluções aumentam a complexidade e o custo. Incorporar privacidade na base elimina a necessidade de middleware.

O Strawmap propõe sete atualizações, com um ciclo de cerca de seis meses, a começar em Glamsterdam. Cada atualização é cuidadosamente limitada a uma ou duas mudanças principais, para que, em caso de falha, se saiba imediatamente a origem.

Segue-se Hegotá, com melhorias estruturais adicionais. Os restantes forks (I* a M*) prolongam-se até 2029, implementando progressivamente consenso mais rápido, ZK proofs, maior disponibilidade de dados, criptografia pós-quântica e privacidade.
Porque só em 2029?
Porque alguns destes desafios permanecem em aberto.
Substituir o mecanismo de consenso é o mais exigente. Imagine trocar os motores de um avião em pleno voo, com milhares de copilotos a ter de concordar com cada alteração. Cada mudança exige meses de testes e validação formal. E a tentativa de reduzir os ciclos para menos de 4 segundos acaba por bater num limite físico: um sinal demora cerca de 200 milissegundos a dar a volta ao mundo. A certa altura, o obstáculo é a própria velocidade da luz.
Tornar as ZK provers suficientemente rápidas é outro desafio fundamental. A diferença entre a velocidade atual (minutos) e o objetivo (segundos) é de cerca de 1 000 vezes. Isto requer avanços matemáticos e hardware dedicado.
Escalar a disponibilidade de dados é difícil, mas mais exequível. A matemática funciona; o desafio é fazê-lo de forma segura numa rede que movimenta centenas de milhares de milhões.
A migração pós-quântica é um pesadelo operacional porque as novas assinaturas são tão maiores que alteram toda a economia da rede.
A privacidade nativa é sensível do ponto de vista regulatório e tecnicamente desafiante. Os reguladores receiam que ferramentas de privacidade facilitem o branqueamento de capitais. Os engenheiros têm de criar algo suficientemente privado para ser útil, mas transparente para cumprir os requisitos legais, e ainda resistente a ataques quânticos.

E não é possível realizar tudo em simultâneo. Algumas atualizações dependem de outras. Não se pode escalar para 10 000 TPS sem ZK proofs maduras, nem escalar as L2 sem resolver a disponibilidade de dados. Estas dependências determinam o calendário.
Três anos e meio é, na verdade, um prazo ambicioso para o que está a ser tentado.
Há ainda uma variável: o Strawmap refere explicitamente que "o rascunho atual assume desenvolvimento orientado por humanos. Desenvolvimento e verificação formal automatizados por IA podem encurtar substancialmente os prazos."
Em fevereiro de 2026, um programador chamado YQ apostou com Vitalik que seria possível, usando agentes de IA, programar todo um sistema Ethereum alinhado com o roadmap para 2030+. Em poucas semanas, lançou o ETH2030: um cliente Go experimental com cerca de 713 000 linhas de código e todos os 65 itens do Strawmap implementados, assinalado como funcional em testnet e mainnet.
Está pronto para produção? Não. Como Vitalik assinalou, haverá certamente bugs críticos e, nalguns casos, implementações incompletas onde a IA nem sequer tentou uma versão final. Mas a resposta de Vitalik merece atenção: "Há seis meses, nem isto era considerado possível, e o que importa é a direção da tendência... As pessoas devem estar abertas à possibilidade (não certeza! possibilidade) de que o roadmap da Ethereum seja concluído mais cedo do que o esperado e com um padrão de segurança muito superior ao previsto."
O ponto-chave de Vitalik é que o melhor uso da IA não é apenas acelerar. É aproveitar metade do ganho em velocidade e metade em segurança: mais testes, mais verificação matemática, mais implementações independentes da mesma solução.
O projeto Lean Ethereum está a desenvolver validação formal automática para partes da stack criptográfica e de provas. Código sem erros, outrora considerado utópico, poderá tornar-se uma exigência básica.

O Strawmap é um documento de coordenação, não um compromisso. Os objetivos são ambiciosos, os prazos aspiracionais e a execução depende de centenas de colaboradores independentes.
A verdadeira questão não é se todos os objetivos serão atingidos a tempo. É se prefere construir numa plataforma com este rumo, ou competir contra ela.
E o facto de tudo isto — investigação, avanços, migrações criptográficas — acontecer de forma aberta, gratuita e acessível a todos... é o aspeto desta história que merece muito mais destaque.
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