Os EUA imprimiram 23 triliões, porque é que a Bitcoin não sobe?



Não se engane a si próprio — o velho guião da “inundação de liquidez” pode já estar obsoleto.

A Reserva Federal imprime dinheiro às escondidas, mas a Bitcoin fica imóvel.

Isto não é uma piada, é o cenário bizarro que está a acontecer agora mesmo.

Dados mais recentes da Fed: em maio, a oferta de M2 dos EUA disparou para 23,05 triliões de dólares, ultrapassando pela primeira vez a barreira dos 23 triliões, um novo máximo histórico.

Desde janeiro, subiu durante cinco meses consecutivos, com uma expansão acumulada de 623 mil milhões de dólares. Só em maio, aumentou 247,8 mil milhões, a taxa de crescimento mensal mais rápida desde maio de 2021.

A torneira está ao máximo, e as notas estão a ser impressas à velocidade mais rápida dos últimos cinco anos.

Segundo o guião da última década, a Bitcoin já deveria ter disparado.

Os dados de investigação de Lyn Alden de 2013 a 2024 mostram que a correlação entre a Bitcoin e o M2 global é de 0,94, com o ponto de viragem do M2 a anteceder o preço do BTC em 70 a 90 dias. Em 2020-2021, a expansão do M2 acompanhou a Bitcoin a subir de 10 mil para 69 mil. Em 2023-2024, o mesmo guião repetiu-se.

Mas desta vez, o guião falhou.

Hoje, a Bitcoin oscila perto dos 63 mil dólares. Em relação ao máximo de 126 mil dólares em outubro de 2025, recuou quase metade.

O M2 sobe, o BTC desce. A divergência mais ampla da história está aí, nua e crua.

A questão é: para onde foi a água?

Primeiro, a água chegou, mas foi para outro lado.

Grande parte do dinheiro desta expansão do M2 ficou acumulada em fundos do mercado monetário — 7,7 biliões de dólares, um aumento de 47% em dois anos e meio. E este dinheiro está altamente concentrado: cinco instituições (Fidelity, Charles Schwab, JPMorgan, Vanguard, BlackRock) controlam 71% dos fluxos.

O dinheiro está nas mãos das instituições, à espera, sem sair.

Entretanto, os fundos globais estão a afluir em massa para a IA e semicondutores. Estudos da Fidelity mostram que o capital especulativo está a sair das criptomoedas e do ouro para entrar em ações de semicondutores. O valor de mercado das NVIDIAs deste mundo já ultrapassou 23 biliões de dólares.

A liquidez ainda existe, mas a Bitcoin já não é o destino preferido.

Segundo, o dólar está demasiado forte, forte demais para o M2 o empurrar.

O M2 é uma variável lenta; a sua expansão leva meses a transmitir-se aos ativos de risco através do crédito e dos fluxos de capitais. Mas a valorização do dólar é uma variável rápida, capaz de apertar as condições financeiras globais em dias.

A primeira reunião do presidente da Fed, Powell, prevê que a taxa de política atinja 3,8% até ao final de 2026, e o mercado vê uma probabilidade de quase 60% de uma subida das taxas em outubro.

De um lado, o M2 sobe; do outro, as expectativas de subida das taxas também sobem. O primeiro é a água, o segundo é a comporta. Se a comporta não se abrir, por mais água que haja, não flui.

Terceiro, e mais doloroso — o dinheiro está a ser sugado pelo buraco negro da dívida.

A dívida pública dos EUA já inchou para 39 biliões de dólares, só com juros anuais superiores a 1 bilião de dólares, mais do que o orçamento da defesa.

O que é que isto significa? Por cada 100 dólares que o governo dos EUA ganha, mais de 20 têm de ser usados para pagar juros.

Quando o défice orçamental pode ultrapassar 10% do PIB, quando a dívida se expande numa trajetória insustentável, a liquidez adicional não está a criar riqueza, está a tapar o buraco da dívida.

O dinheiro impresso é comido pelos juros antes de chegar ao mercado.

Então, a velha lógica de o M2 impulsionar a Bitcoin é apenas um atraso ou está a falhar?

O meu palpite: falha a curto prazo, incerto a longo prazo.

Os otimistas dizem que é apenas um atraso — historicamente, a Bitcoin já pareceu “descolar”, mas acabou sempre por recuperar. O relatório da Fidelity também mantém otimismo, acreditando que, com o início do ciclo de flexibilização monetária, os benefícios do M2 acabarão por se concretizar.

Mas uma leitura mais cautelosa é: a estrutura do mercado já mudou. ETFs à vista, fundos institucionais, concorrência das ações de IA podem estar a alterar permanentemente a forma como a Bitcoin reage à liquidez. A liquidez continua importante, mas já não é a única variável dominante.

O rácio BTC/M2 chegou mesmo a formar um padrão de cabeça e ombros — um sinal de baixa típico na análise técnica.

Por fim, uma palavra do coração:

“Não uses o mapa de 2021 para navegar na estrada de 2026.”

Na última década, quando o M2 subia, a Bitcoin subia, isso é verdade. Mas naquela altura não havia o buraco negro da dívida de 39 biliões, nem 7,7 biliões à espera em fundos do mercado monetário, nem a IA a competir com a Bitcoin pela liquidez.

Os tempos mudaram, o calendário velho deve ser rasgado.

A variável chave a seguir é uma só: quando é que o dólar enfraquece. Enquanto o dólar se mantiver forte, por mais que o M2 atinja novos máximos, não adianta. Assim que a valorização do dólar parar, só então o dividendo da liquidez do M2 poderá ser libertado.

Mas até lá — não te deixes raptar pela narrativa de “M2 novo máximo = Bitcoin vai subir”.

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