Adeus, Cristiano Ronaldo. Adeus aos meus vinte anos de juventude.


O vento da noite no noroeste volta a emocionar o velho capitão.
Tal como o seu antepassado Magalhães, passou a vida a perseguir o sonho de dar a volta ao mundo, mas nunca chegou ao destino final.
A 7 de julho de 2026, no Estádio Al Thumama. Portugal caiu diante de Espanha, e o homem que vestia a camisola número 7 terminou o seu sexto Mundial.
Vinte anos de dedicação, seis participações em Campeonatos do Mundo, mas no fim, não conseguiu conquistar a tão desejada Taça do Mundo.
Neste momento, a história de Cristiano Ronaldo no Mundial chegou ao fim.
O rapaz outrora cheio de garra, que chorava e ria, chegou finalmente ao fim da lenda.
E a juventude da nossa geração parece também ter caído o pano com a sua saída.
Crescemos a ver o Cristiano Ronaldo, e, sem darmos por isso, ele também foi envelhecendo connosco.
O Mundial dele é como a vida de muitas pessoas comuns.
Teve picos, teve vales; teve glórias e também desilusões.
Mundial de 2006, na Alemanha.
Cristiano Ronaldo, com 21 anos, pisou pela primeira vez o palco do Mundial, vestindo a camisola 17, inexperiente mas já com um talento notório.
Naquele ano, marcou o seu primeiro golo num Mundial, a geração de ouro de Portugal estava ainda ao seu lado, e a sua era começava silenciosamente.
Naquele ano, eu também estava sentado na sala de aula, a lutar pelos exames nacionais.
Ele corria no relvado, eu debruçava-me sobre a secretária a resolver exercícios.
Ambos estávamos no início das nossas vidas, a dar tudo pelo futuro.
Mundial de 2010, na África do Sul.
Cristiano Ronaldo, com 25 anos, assumiu pela primeira vez verdadeiramente a liderança da seleção portuguesa.
Sem a proteção dos antecessores, começou a enfrentar o mundo sozinho.
Acabou por ser eliminado nos oitavos de final.
Naquele ano, eu tinha acabado de me formar na universidade e entrei pela primeira vez na sociedade.
A pressão do trabalho, as responsabilidades da vida, tudo veio de repente.
Ambos começámos a perceber que crescer é aprender a carregar o peso sozinho.
Mundial de 2014, no Brasil.
Cristiano Ronaldo, com 29 anos, jogou a fase de grupos lesionado, mas não conseguiu evitar a eliminação precoce de Portugal.
Foi, talvez, o Mundial mais impotente da sua carreira.
Naquele ano, a minha vida também entrou na fase mais difícil.
Trabalhava arduamente, vivia intensamente, mas muitas vezes não obtinha os resultados desejados.
Só mais tarde percebi que as estrelas têm as suas dificuldades, e as pessoas comuns também têm as suas.
Mundial de 2018, na Rússia.
Cristiano Ronaldo, com 33 anos, viveu o jogo mais icónico de um Mundial.
Contra a Espanha, fez um hat-trick.
O livre marcado perto do fim tornou-se uma das imagens mais emblemáticas da história dos Mundiais.
Naquele ano, casei-me.
A partir daí, deixei de viver apenas para mim.
Ele carregava no campo a esperança de um país; eu, na vida, a responsabilidade de uma família.
Afinal, assumir responsabilidades é a lição mais importante do crescimento.
Mundial de 2022, no Qatar.
Cristiano Ronaldo, com 37 anos, tornou-se no primeiro jogador a marcar em cinco Mundiais consecutivos.
Mas desta vez, aceitou pela primeira vez o lugar no banco de suplentes.
O rapaz outrora tão exuberante começou a aprender a fazer as pazes com o tempo.
Portugal foi eliminado nos quartos de final.
A era do Mundial de Messi e Ronaldo aproximava-se do fim.
Naquele ano, tornei-me pai.
Finalmente comecei a compreender o quão difícil é alguém persistir na mesma coisa durante vinte anos.
Ambos fomos, com o tempo, suavizando o nosso ímpeto, colocando a responsabilidade antes dos sonhos.
Até 2026.
Cristiano Ronaldo, com 41 anos, pisou pela sexta vez o palco do Mundial.
O tempo levou-lhe a velocidade e a explosão.
Mas nunca lhe tirou a autodisciplina, a garra e a vontade de vencer que tinha gravadas no sangue.
Contra o Uzbequistão, voltou a marcar dois golos, estabelecendo um novo recorde no Mundial.
Mas, no fim, caiu na derradeira etapa.
O rapaz que durante vinte anos perseguiu o sonho de vencer o Mundial nunca conseguiu realizá-lo.
Muitos dirão que não ter vencido o Mundial é o maior arrependimento de Cristiano Ronaldo.
Mas se olharmos para a sua carreira...
Cinco Bolas de Ouro.
Cinco Ligas dos Campeões.
Campeonato da Europa.
Liga das Nações.
Melhor marcador de sempre.
Campeonatos nas quatro principais ligas.
Do menino pobre da Ilha da Madeira a uma das maiores lendas do futebol mundial.
Com mais de vinte anos de autodisciplina extrema, completou uma reviravolta quase impossível na vida.
Ele mostrou a todos com o seu esforço: o talento define o ponto de partida, a autodisciplina define o ponto de chegada.
No entanto, mesmo alguém tão excelente tem sonhos que não consegue realizar.
E é exatamente por isso que Cristiano Ronaldo se parece mais connosco.
A vida nunca é feita apenas de resultados para todo o esforço.
Nem toda a persistência traz um final feliz.
O que realmente importa nunca foi se no fim se levanta a taça.
Mas sim, depois de cair vezes sem conta, continuar a levantar-se e a correr.
O Mundial acabou.
A era de Cristiano Ronaldo acabou.
Aqueles anos de futebol da nossa juventude também acabaram.
Só mais tarde percebemos que a maior maturidade na vida não é vencer a todo o custo, mas sim, depois de dar o nosso melhor, aceitar serenamente todas as imperfeições.
Obrigado, Cristiano Ronaldo.
Obrigado por teres acompanhado a nossa juventude.
Adeus, Mundial.
Adeus, Cristiano Ronaldo.
E adeus também àquele eu que outrora foi jovem, apaixonado e acreditava que o esforço traria sempre a realização dos sonhos.
@Cristiano #Mundial
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RedTelephoneBoothRuins
· 1h atrás
Da ilha da Madeira ao topo do mundo, ele levou vinte anos a mostrar-nos o que é a disciplina extrema. E que importa não ter o Troféu do Mundial? Ele já era, há muito, o campeão no coração de inúmeras pessoas.
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GateUser-f4b3df7a
· 1h atrás
Ao ler este texto, realmente fiquei com os olhos marejados. Não é só erguer o troféu que significa realização; ter lutado já é lendário.
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CancelingOrdersIsLikeBreathing
· 1h atrás
Em 2006, eu ainda estava no cibercafé a ver o jogo, em 2026 o miúdo já está na escola primária. O tempo passa tão rápido.
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