Há quem diga que a Copa do Mundo é manipulada. O nível de surrealismo deste Mundial é tanto que até o deus do jogo abanaria a cabeça.



Espanha contra Cabo Verde, um país com 550 mil habitantes — a comunidade de Tiantongyuan, em Pequim, tem 400 a 500 mil pessoas. Um jogo de elefante a pisar formiga, e deu empate.

O Portugal de CR7 frente à República Democrática do Congo, cujo histórico contra Portugal é pior que o da China. Fechas os olhos e apostas em Portugal? Outro empate.

A máquina alemã contra o Equador — um país que tens de procurar no mapa durante um bom bocado. Pensas: "Não pode ser outro empate, pois não?" Não foi empate, a Alemanha perdeu por 1-2.

Isto não é a Copa, é um jogo de enredo.

Ou é o capital a fazer o jogo, com as casas de apostas a mandar as equipas fortes do céu ao inferno. Isto não pode ser jogo combinado? O treinador alinha antes do jogo, e depois a conta bancária recebe uns milhões de dólares.

Será que as casas de apostas têm mesmo tanto poder?

Provavelmente não.

As apostas desportivas legais têm quatro gigantes, três deles cotados em bolsa, com finanças transparentes.

Tomemos o maior do setor: no ano do Mundial do Catar, a receita total não chegou a dezenas de milhares de milhões, e as apostas não ultrapassaram 6 mil milhões.

Como é que eles ganham dinheiro? A fazer batota?

Não precisam. As casas legais não se importam com quem ganha, porque ganham dinheiro independentemente do resultado. Pensas que estás a lutar contra a casa, mas na verdade és apenas um peão a chocar com outros peões.

Para perceberes como ganham, tens primeiro de perceber as odds.

Quanto mais altas as odds, mais baixa a probabilidade. Espanha vence a 1.08, empate a 8.5, Cabo Verde vence a 26. Apostas 1 euro na Espanha, ganhas 1,08; no empate, ganhas 8,5; em Cabo Verde, ganhas 26. Quanto maior o risco, maior o prémio.

A casa usa o dinheiro dos perdedores para pagar os vencedores e fica com a comissão.

Alguém pode dizer: e se toda a gente acertar?

A casa pode ajustar as odds. Quanto mais gente aposta na Espanha, mais baixam as odds da Espanha e sobem as do empate e da surpresa, até o dinheiro ficar equilibrado.

Outra tática é o handicap: por exemplo, Espanha com -2 golos. Se ganhar por um, perdes a aposta; por dois, empate; por três ou mais, ganhas.

A casa tem muitos métodos, muito mais eficientes do que dar-se ao trabalho de combinar jogos.

Apostar sempre nos favoritos é como um investimento conservador, mas basta uma surpresa para deitar a perder o lucro de nove jogos.

Há quem diga: "Ninguém percebe mais de futebol do que eu?"

Esse pensamento é a maior armadilha.

O mais perigoso nas apostas não é perder dinheiro, é ganhar logo no início. Por muito que ganhes ao princípio, a longo prazo a probabilidade é perder.

O teorema da ruína do jogador: tu e a casa a jogar cara ou coroa, 50% cada, justo. Mas com comissão, mesmo com 50-50, se jogares muitas vezes, só a comissão come o teu capital.

50% é a probabilidade a longo prazo. A curto prazo podes ganhar 10 vezes seguidas, ou perder 10 vezes. A casa tem um fundo infinito, tu quando perdes a sequência tens bala limitada e perdes a cabeça. Vais all-in, e é o fim.

No futebol, o apostador comum tem ainda menos hipóteses.

Quem consegue parar a tempo é uma minoria sobrevivente.

As plataformas ainda usam várias estratégias para te estimular. Podes apostar a qualquer momento durante o jogo: total de golos, quem marca primeiro, cantos, cartões — dezenas de momentos num jogo. Apostas múltiplas, tens de acertar em todas para ganhar, odds de centenas ou milhares, probabilidade baixíssima.

Nestas regras, quanto mais jogas, mais erras.

O cérebro tem o córtex pré-frontal para controlar os impulsos. Mas no momento da aposta, o núcleo accumbens assume e liberta dopamina. A amígdala amplifica o medo.

Quanto mais tenso o jogo, mais te empurram a apostar e a assustar-te: se não recuperares, perdes tudo.

Depois de perderes, o "quase ganhei" continua a provocar-te: mais uma vez e vais ganhar.

As casas de apostas nunca vendem futebol; vendem a tua expectativa, emoção, arrependimento e impulso de recuperar perdas.

Isto com licença. As mesas clandestinas não têm regulação, só a lei da selva e o que é pior.

Por exemplo, em 2009, na Primeira Liga Chinesa, um jogo em que uma equipa de Qingdao, a ganhar 3-0, fez três auto-golos de baliza a baliza. Depois soube-se que o dono tinha apostado no "mais de golos" e, como não conseguia marcar ao adversário, mandou a equipa marcar na própria baliza. O quarto golo não entrou, e o dono ainda perdeu dinheiro.

O rei das combinações de Singapura manipulou jogos por todo o mundo, o mais ridículo foi em 2010, um amigável Bahrein vs Togo, 8-0. Depois a federação togolesa disse que nem tinha enviado a seleção; os jogadores em campo eram todos falsos, improvisados.

Mesmo os velhos manipuladores só têm 70-80% de sucesso, e ainda falham.

Se nem quem faz o jogo ganha de certeza, como é que achas que vais ganhar sempre?

Por fim, na China, fora a lotaria nacional, todas as outras apostas desportivas são ilegais. Se perderes, o dinheiro desaparece; se ganhares, a plataforma fica com ele. Se te apertarem, transferem-te dinheiro de esquemas fraudulentos — vais denunciar?

As redes de apostas clandestinas escondem-se no Sudeste Asiático, nos parques industriais, mais fáceis do que esquemas de "porco abatido". Vês um anúncio, carregas e depositas; quando perdes, ainda pedes para aumentar.

Por fim, a frase de Stanley Ho:

"Não tenho medo que ganhes, tenho medo que não venhas. Porque eu estou aqui para sacar a comissão, nunca me vais vencer."
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