Quando as Celebridades lançam criptomoedas: o caso dos tokens presidenciais e a "máquina para extrair valor"

A história por trás das meme coins: de uma brincadeira a uma indústria de biliões

Antes de analisar como uma família política pode ganhar centenas de milhões de dólares lançando tokens digitais sem valor intrínseco, é essencial compreender o que é uma meme coin e como conquistou o mercado de criptomoedas.

Em 2013, dois programadores criaram o Dogecoin usando o ícone de um Shiba Inu com expressão perplexa — já famoso no Reddit e 4chan — como símbolo de ironia em relação à proliferação de moedas digitais pós-Bitcoin. A intenção era satírica, mas os investidores chegaram em massa e, em poucas semanas, o projeto atingiu uma capitalização de 12 milhões de dólares. Os apoiantes até patrocinaram uma equipa da NASCAR, cobrindo o carro com adesivos.

Um dos fundadores teve uma dúvida profética: “Espero realmente que as pessoas não tomem o Dogecoin como modelo para transformar cada meme viral numa criptomoeda.” Mas aconteceu exatamente o contrário. Nos anos seguintes, quando personalidades como Elon Musk começaram a promover publicamente o Dogecoin, o mercado encheu-se de variantes — Dogwifhat, Bonk, Fartcoin — cada uma prometendo replicar o “milagre do primeiro meme coin”.

O paradoxo das meme coins: valor baseado unicamente na especulação

As meme coins representam uma anomalia nos mercados financeiros tradicionais. Até as bolhas especulativas mais extremas da história basearam-se numa expectativa teórica — por mais fraca que fosse — do potencial futuro. As meme coins não produziram, não geram fluxos de caixa, não possuem qualquer ativo subjacente técnico. Segundo os critérios de avaliação clássicos, não deveriam valer praticamente nada.

E, no entanto, geram lucros astronómicos. Como afirmou Alon Cohen, cofundador de uma plataforma de lançamento de tokens, numa entrevista: “De acordo com a hipótese dos mercados eficientes, isto não deveria funcionar, mas a realidade é que faz ganhar dinheiro.” Cohen, aos 22 anos, já acumulou uma riqueza considerável. A sua plataforma assistiu ao lançamento de cerca de 1.400 meme coins e arrecadou mais de 1 milhar de milhões de dólares apenas em comissões de transação desde janeiro de 2024.

A economia das meme coins funciona segundo uma lógica simples: o valor depende exclusivamente da capacidade de encontrar o próximo comprador disposto a pagar mais. É especulação sobre a própria especulação — um jogo de soma zero onde os vencedores são aqueles que entram primeiro e saem antes do colapso.

O “Crypto Ball” de janeiro de 2025 e o debut dos tokens Trump

O fim de semana da tomada de posse presidencial americana de janeiro de 2025 viu convergir dois eventos importantes. Por um lado, o “Crypto Ball” no Auditório Andrew W. Mellon, em Washington, reunia lobistas do setor, influenciadores e políticos. Por outro, o presidente eleito anunciou na sua plataforma Truth Social o lançamento de um token chamado “TRUMP”.

O anúncio foi acompanhado pela mensagem “Divirtam-se!” e o preço da moeda disparou às estrelas em poucas horas. Ao mesmo tempo, no mesmo fim de semana, a esposa lançou “MELANIA”. Os dois tokens atingiram rapidamente uma capitalização combinada superior a 5 mil milhões de dólares em pico de valor.

A trajetória, porém, revelou-se previsível: em dois dias, o preço desabou, nunca recuperando. Segundo análises de empresas especializadas, a equipa da família — juntamente com os seus parceiros comerciais — teria arrecadado mais de 350 milhões de dólares antes do colapso. Centenas de milhares de pequenos investidores sofreram perdas totais.

O papel da Meteora e os “parceiros misteriosos”

O mistério central envolve a identidade de quem criou e lançou efetivamente esses tokens. Embora o presidente tenha declarado que “não sabe de nada” durante a sua primeira conferência de imprensa, documentos registados em Delaware revelam o envolvimento de Bill Zanker, empresário septuagenário conhecido por ter co-escrito um livro com Trump em 2007 e por promover há décadas seminários e conferências sobre “negócios”.

Uma pista mais significativa leva a “Fight Fight Fight LLC” — uma empresa fantasma registada numa filial de uma caixa postal privada em West Palm Beach. Mas as ligações reais emergem através da análise blockchain e dos testemunhos de insiders.

Um papel crucial parece ter sido desempenhado pela plataforma de trading Meteora, uma exchange descentralizada onde tanto TRUMP quanto MELANIA ( assim como um token semelhante lançado por um líder sul-americano) foram emitidos. A Meteora foi cofundada por Ming Yeow Ng, conhecido online como “Meow”, um quarentão de Singapura com avatar de um gato astronauta.

Ng afirma que a Meteora forneceu unicamente “suporte técnico” para a criação dos tokens, negando envolvimento nas transações comerciais ou manipulações de mercado. No entanto, segundo testemunhas, a equipa da Meteora — em particular o seu ex-CEO Ben Chow — manteve relações estreitas com consultores que operavam nos bastidores.

Hayden Davis: o consultor misterioso e o “pump and dump” presidencial

O fio condutor que liga os diversos escândalos relacionados com os tokens presidenciais é Hayden Davis, um consultor crypto de trinta anos, originário da Liberty University, que se define como “especialista em startups”. Trabalhando com o pai Tom, Davis fundou a Kelsier Ventures, operando como uma “banca de investimento alternativa” especializada no lançamento e gestão de tokens com perfis de alto rendimento.

Segundo análises blockchain de investigadores especializados, o esquema operacional de Davis seguia um padrão coerente: venda inicial interna a preço baixo → aumento rápido da capitalização → colapso rápido. Os cálculos sugerem que Davis e os seus parceiros arrecadaram mais de 150 milhões de dólares, com a maioria proveniente de um único projeto.

Quando esse projeto desabou após poucas horas, as consequências políticas foram significativas. Davis posteriormente admitiu publicamente que participou no lançamento de um token ligado a uma personalidade política latino-americana, alegando, porém, que “apenas geriu fundos para outros” — fundos esses que nunca foram devolvidos.

Numa entrevista com um criador de conteúdos anti-fraude, Davis descreveu a cena das meme coins como “não honesta”, admitindo que os mercados que promove operam como “cassinos não regulamentados”. Curiosamente, admitiu também ter tido um papel no lançamento de MELANIA, embora insistisse que “não ganhou nada” e aconselhasse os investidores a “evitar completamente o mercado”.

A testemunha-chave: o whistleblower e a rede de ligações

Uma viragem investigativa surgiu do testemunho de Moty Povolotski, cofundador de uma startup de finanças descentralizadas, que se tornou numa espécie de “informador” público. Povolotski revelou que a sua empresa tinha sido encarregada de gerir transações por conta de Davis e que possuía “provas de uma conspiração mais ampla”.

Nas mensagens e comunicações registadas, Davis parecia obcecado em extrair o máximo valor dos tokens antes de cada colapso inevitável. Uma frase recorrente nas suas mensagens aos sócios era: “Só temos que espremer tudo deste token.” Para MELANIA, Davis teria transferido cerca de 10 milhões de tokens para intermediários, ordenando que “vendessem assim que a capitalização atingisse 100 milhões de dólares” e recomendando operações “completamente anónimas”.

A rede estendia-se até Singapura. Povolotski relatou ter conhecido Davis através de Ben Chow, então CEO da Meteora, numa festa em setembro de 2024. Nos intercâmbios seguintes, Davis citava frequentemente “as instruções de Ben Chow”, sugerindo uma coordenação estreita entre ambos.

A análise blockchain revela o insider trading

Os investigadores de análise blockchain descobriram anomalias significativas nos dados públicos de TRUMP e MELANIA. Um endereço adquiriu 1,1 milhões de dólares em TRUMP em poucos segundos — claramente operado por quem possuía informações privilegiadas sobre os tempos de lançamento — para depois vender tudo em três dias com um lucro de 100 milhões de dólares.

Outro wallet comprou MELANIA “antes de ser tornada pública”, gerando um lucro de 2,4 milhões de dólares. Através da análise da cadeia de transações, os analistas descobriram que esse wallet pertencia à mesma entidade responsável pela criação de MELANIA.

“Na Wall Street chamaria-se insider trading,” observou Nicolas Vaiman, analista especializado em forense blockchain, “mas nenhuma autoridade quer aplicar regras semelhantes ao mercado das meme coins. Essencialmente, no setor cripto, o crime é legal.”

Ainda mais revelador foi o fato de que o wallet criador de um token semelhante lançado por um líder sul-americano estivesse ligado ao responsável por MELANIA — e o consultor desse líder já era conhecido publicamente.

A ausência de regulamentação: o vazio normativo

Quando o governo Trump assumiu o poder, a Securities and Exchange Commission declarou que “não regula” as meme coins, limitando-se a observar que “outras leis contra fraudes podem ainda aplicar-se” — uma afirmação teórica sem efeitos práticos.

Nenhum outro órgão regulador, procuradoria federal ou investigador moveu-se. Entretanto, as ações civis movidas por advogados especializados em fraudes de mercado avançam lentamente, sem acusações diretas aos políticos envolvidos.

Os arguidos negam sistematicamente: os advogados sustentam que os tokens “não eram fraudes” e que nenhuma promessa de valorização foi alguma vez formalmente feita; os negociantes afirmam ter fornecido “apenas suporte técnico” sem conhecimento das intenções dos emissores.

Ming Yeow Ng e a filosofia da “utopia financeira”

Encontrado num café de gatos perto do seu escritório em Singapura, Ming Yeow Ng articulou uma visão filosófica que mistura liberdade financeira com ceticismo pós-moderno. “Até o dólar é uma meme coin,” declarou, batendo na mesa, “tudo se baseia na fé coletiva. Se atribuis valor a algo, esse algo tem valor.”

Ng, quarentão criado a gerir uma banca de comida de rua, posteriormente estudou engenharia informática e desenvolveu serviços tecnológicos. A sua imersão no mundo cripto aconteceu através de uma “festa temática Dogecoin” que o fascinou profundamente.

Durante a conversa, Ng admitiu que a “equipa Trump” contactou a Meteora solicitando “suporte técnico” para criar os tokens, mas insistiu que a sua empresa limitou-se a fornecer infraestrutura. Rejeitou as perguntas sobre Davis e Chow como “conspiracionistas”, afirmando que é “difícil julgar” as ações alheias.

Quando confrontado com o fato de que o mercado que ele facilitou se assemelha mais a um casino manipulado do que a uma utopia financeira, Ng respondeu que essa era a natureza inevitável dos mercados em geral: “A cripto é um microcosmo. Reflete aquilo que o mundo realmente quer — fazer dinheiro sem esforço.”

Epílogo: a queda da mania e o legado que ficou

Nos meses seguintes ao lançamento, o volume total de trocas das meme coins contraiu-se drasticamente. Em novembro, o volume tinha caído 92% em relação ao pico de janeiro. Os investidores foram “espremidos” progressivamente até ao esgotamento dos fundos disponíveis.

Em 10 de dezembro, o TRUMP tinha caído 92% desde os máximos, para 5,9 dólares; o MELANIA tinha desabado 99%, sendo negociado a apenas 0,11 dólares — praticamente papel de lixo. Hayden Davis tornou-se um pária do setor, desaparecendo das redes sociais, embora a análise blockchain mostrasse a sua wallet ainda ativa no trading de meme coins.

A plataforma da Meteora, entretanto, lançou uma criptomoeda própria em outubro, com uma capitalização superior a 300 milhões de dólares, obtendo os principais lucros a partir da percentagem de comissões geradas pelos meme coins — cerca de 90% dos 134 milhões de dólares de receitas anuais.

Segundo um advogado especializado em direito financeiro, o que aconteceu representava “a máquina definitiva para extrair valor, projetada por pessoas muito capazes”. Enquanto as ações civis avançam lentamente e nenhuma acusação criminal foi formalizada, permanece uma realidade: com um governo inclinado a afrouxar a regulamentação financeira e mercados liderados por quem lucra com a volatilidade, o setor das criptomoedas continua a ser o “Far West” financeiro — onde as regras tradicionais de transparência e responsabilidade simplesmente não existem.

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